sexta-feira, 1 de junho de 2018

“Três amigos e um violão” - Nelson Motta


Marcos era louro, leve e surfista; Edu, moreno charmoso e rigoroso; e Dori, um falso ranzinza afro-italiano de humor hilariante
No meio do caos, de tiro, porrada e bomba, com o Brasil pegando fogo, me refugio na nostalgia para escapar do desespero e da depressão. Volto aos 20 anos, estudante de Design completamente apaixonado por música, quando conheci Edu, Marcos e Dori numa academia de violão em uma casinha de Copacabana, onde Roberto Menescal dava aulas e trazia as novidades da bossa nova. As academias do corpo ainda não existiam.
Dori era filho de Dorival Caymmi; Edu, de Fernando Lobo; grandes compositores; Marcos era filho de advogado e morava numa bela casa com piscina no final do Leblon e, garoto de sorte, era exatamente em frente à casa de Tom Jobim.
Num ônibus em Copacabana, Marcos conheceu Edu, que estava com um violão, e o apresentou a Dori. Se gostaram tanto que formaram um trio vocal que durou pouco, mas aumentou a amizade no exercício de humildade e disciplina que é cantar num vocal.
Como aspirante a violonista muito esforçado e pouco talentoso, ainda mais diante dos três amigos, coube-me iniciar uma carreira de letrista e de narrador de uma bela história de amor à música e amizade.
Além de amigo, me tornei fã daqueles três garotos, que tinham um talento assombroso e a missão de fazer uma música que superasse a qualidade insuperável da bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto. Como era impossível, o jeito foi fazer diferente.
Marcos era louro, leve e surfista; Edu, moreno charmoso e rigoroso; Dori, um falso ranzinza afro-italiano, com um humor hilariante e o desafio de ser filho de um dos pais fundadores da música brasileira. E se consagrar com uma música marcada pela originalidade, densidade e brasilidade.
Chegando aos 75 anos, os três virginianos Dori Caymmi, Edu Lobo e Marcos Valle conquistaram, cada um com seu estilo, tudo, ou mais, que um jovem compositor poderia sonhar em 1964.
Agora, os três comemoram a amizade com um disco em que cada um interpreta músicas dos outros, com Dori cantando “Dos navegantes” (Edu e Paulo César Pinheiro ); Edu, “Viola enluarada” (Marcos e Paulo Sérgio Valle); e Marcos, “Saveiros” (Dori e Nelson Motta ). Não é só nostalgia, também é história. - CONFERE LÁ