sábado, 22 de fevereiro de 2020

“Deus é uma invenção do homem”


Gilberto Gil é um dos maiores seres humanos da história do Brasil. Sua enorme contribuição para as artes brasileiras e para a cultura de nosso país é impossível de ser esquecida, e Gil até hoje mantém sua carreira ativa, fazendo shows e dialogando com as questões políticas e culturais que aparecem no nosso país.
Nessa semana [18/02/2020], , o cantor e compositor participou de um programa da GNT, o ‘Segunda Verão’. Questionado sobre sua religiosidade, a voz de ‘Andar com fé’ abriu seus pensamentos sobre a religião e sobre Deus e afirmou que, para ele, isso se trata de uma invenção humana.

“Ninguém sabe quais são os desígnios de Deus, porque ele quer que seja assim ou porque ele quer que seja assado. Eu costumo dizer que nós é que criamos isso; Deus é uma invenção do homem. A crença geral é que é o oposto, que o homem é que foi criado por Deus”, afirmou.

Ao longo de sua discografia, Gil sempre abordou temas religiosos em suas composições. É natural também observar influência da musicalidade de religiões de matriz africanas no Samba, e, por consequência na música de Gil e tantos outros da MPB. Porém isso não significa que o ícone da Bahia se mantenha em uma religião específica.

“A religião no modo geral, a crença não só em uma transcendência, de uma possível vida depois desta, mas também à regência feita por essa instância superior, normatizando procedimentos e comportamentos, é uma coisa que as religiões adotam e isso acaba, na maioria dos casos, levando as pessoas a uma adoção de uma maneira de ser relativa àqueles preceitos e mandamentos de Deus.”, continuou.

“Mas, por um respeito cultural, um respeito cívico e resíduo natural, continuo dizendo ‘Graças a Deus’ e ‘Deus lhe proteja’ para as pessoas. Eu gosto de todos aqueles que têm fé, que acreditam e que estão ligados a religiões que, em sua maioria, têm relações com o bem fazer e o bem querer. Eu gosto da bondade e defendo. Até brigo por ela”,completou.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

“Elogio à solidão” – Paulo Pestana


Depois das duas habituais doses de uísque, ele levantou-se e anunciou: “Meus amigos, me deem licença porque vou usufruir da minha própria e agradável companhia”. Mulher e filhos viajando, foi para casa, onde só teria de dar comida ao cachorro e deitar-se no sofá, curtindo a solidão. Saia do bar bem mais inteiro do que chegou.

Ele poderia ter citado o filósofo alemão Arthur Schopenhauer quando disse que “a solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais”. Ou o padre Henri Lacordaire: “É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o gênio”. Mas não era o caso. Ele só queria apreciar a sensação de estar em casa sem ninguém pedir nada a ele.
“Eu e meu ego”, disse ele, saboreando cada sílaba. “Como eu gosto de mim.”

O fato é que a solidão é um prazer para poucos. Para a maioria é tormento que segue o pensamento aristotélico, segundo o qual, “quem encontra prazer na solidão ou é fera selvagem ou é Deus”. E assim, a maioria das pessoas dispensa uma das melhores sensações que podem ser experimentadas: um mergulho na própria alma. Sem palpites externos.

Nos últimos anos, principalmente depois da ascensão das chamadas redes sociais, aflorou uma falsa sensação de coletividade baseada na posse de um telefone que amplia os horizontes do conhecimento ao mesmo tempo que reduz a convivência íntima – a não ser que se chame de intimidade a proliferação de filmes e fotos de nudez que são publicadas todo dia.

As discussões via internet, principalmente as mais acaloradas, forjam uma falsa sensação de vida social. Mas não há discussão boa sem a umidade dos perdigotos e a indignação dos socos na mesa; não há entendimento sem o intransferível embate pessoal, não há resultado nesses estéreis e covardes debates virtuais.

Da mesma maneira, a intimidade pessoal construída no mundo virtual é uma farsa e aprofunda a sensação de deslocamento pessoal na sociedade. Traz a ilusão que uma pessoa com muitos amigos na rede é popular – ou tem alguma importância.

A solidão não é vilã: pode ser produtiva. Todos os livros, por óbvio, foram produzidos nos momentos em que o autor estava entregue exclusivamente a sua história, embora possam ter sido criados a partir de convívio social; o mesmo acontece com os quadros que, quando muito, são divididos entre o artista e o modelo.

Mas a maioria das pessoas não sabe o que fazer com o próprio corpo e muito menos com o próprio pensamento. E este foi o motivo principal para que os britânicos criassem o Ministério da Solidão, que vai cuidar de nove milhões de solitários que sofrem com várias doenças que o isolamento trouxe. É o que a primeira-ministra Thereza May chamou de “triste realidade moderna”.

Eu prefiro ficar com o poeta Rainer Maria Rilke: “Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só”.

Paulo Pestana é jornalista.
Publicado no Correio Braziliense em 28/01/2018

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

“Nunca foi tão bom estar comigo”, por Guilherme Moreira Jr

Cada vez mais percebo o quanto tenho ficado próxima de mim. Andei negligenciando a minha presença, mas isso mudou. Hoje, não só fiz as pazes comigo, como também aproveitei para traçar novos caminhos e sentimentos que preciso para a minha vida respirar sentido.

A verdade é que eu senti a minha falta por tempo demais. Não desperdicei instantes e afetos mas, sinceramente, deveria ter reservado um pouco das minhas melhores versões para os dias difíceis. Porque é normal desistir, não querer mais ou não achar mais atrativa alguma escolha. Eu não sou obrigada a seguir os passos dos outros. E também não assinei nenhum contrato permitindo que a minha energia seja sugada por quem pouco ou nada fez para os meus sorrisos.

Acho que mereço um descanso. Não me vejo como um alguém egoísta. Agora, tenho a maturidade necessária para vestir intensidades e para tratar como prioridade os planos e sonhos que acumulei. Quero paz, alguns silêncios e um amor para acompanhar. Mas não me iludo. Não quero nenhuma dessas coisas se isso custar o meu ímpeto pela vida. É importante mencionar, a liberdade de deixar os sentimentos comandarem sempre esteve dentro de mim.

Às vezes acabo me cobrando muito. Acabo deslizando e deixando a correria e o peso da dúvida entrarem no coração. Até que me dou conta do óbvio, só eu posso sair dessa situação. Como? Dedicando cumplicidades e respeitos e pela minha pessoa. Não existindo apenas para cumprir obrigações e outros tratos diários. Quando tenho vontade, bebo um excesso de loucura. Viajo, faço uma maratona de filmes, saio sozinha, fico em casa olhando pro teto, não importa. Procuro achar graça em coisas comuns e é assim que tento viver.

Então, ao fim de tudo, tento não esquecer de quem sobrevive todos os dias com o coração na mão e alma estampada nos olhos, eu. É de mim que preciso cuidar, ansiar e permanecer. E quer saber? Nunca foi tão bom estar comigo.


Guilherme Moreira Jr/ contioutra.com

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Kintsugi: a beleza das cicatrizes da vida

Em uma época dominada por consumismo e obsolescência programada, o mais provável é que, se um dia você levantar com o pé esquerdo, tropeçar e deixar cair a xícara do café, simplesmente se resignará a juntar os pedaços e a jogá-los no lixo. Algo impensável no Japão.

Há cinco séculos, surgiu no Extremo Oriente o kintsugi, uma apreciada técnica artesanal com o objetivo de reparar uma tigela de cerâmica quebrada. Seu proprietário, o xogum Ashikaga Yoshimasa, muito apegado a esse objeto indispensável para a cerimônia do chá, mandou consertá-lo na China, onde se limitaram a fixá-lo com alguns grampos toscos. Insatisfeito com o resultado, o senhor feudal recorreu aos artesãos de seu país, que propuseram finalmente uma solução atrativa e duradoura.

Encaixando e unindo os fragmentos com um verniz polvilhado com ouro, eles restauraram a forma original da cerâmica, embora as cicatrizes douradas e visíveis tenham transformado sua essência estética, evocando o desgaste que o tempo provoca sobre as coisas físicas, a mutabilidade da identidade e o valor da imperfeição. Assim, em vez de dissimular as linhas de fissura, as peças tratadas com esse método exibem as feridas de seu passado, adquirindo uma nova vida. Tornam-se únicas e, portanto, ganham beleza e intensidade. Alguns objetos tratados com o método tradicional do kintsugi– também conhecido como “carpintaria de ouro” – inclusive chegaram a ser mais apreciados que antes de quebrar. Desse modo, a técnica se transformou numa potente metáfora da importância da resistência e do amor próprio frente às adversidades.

A filosofia vinculada ao kintsugi pode se aplicar à nossa vida atual, repleta de ânsias de perfeição. Ao longo do tempo, conhecemos fracassos, desenganos e perdas. Mas pretendemos esconder nossa natureza frágil, que nos faz mais humanos e autênticos, sob a máscara da infalibilidade e do sucesso. Ocultamos os defeitos, embora tenhamos falhas desde que nascemos.
O jornalista alemão Adam Soboczynski diz no livro El Arte de No Decir la Verdad (a arte de não dizer a verdade) que aprendemos a camuflar “com grande esforço, e mantendo a compostura, inclusive a mais terrível das comoções que nos atingem”.

Somos vulneráveis não apenas do ponto de vista físico, mas também psíquico. Quando as adversidades nos superam, nos sentimos quebrados. Às vezes, é o acaso que nos leva ao ponto de ruptura; em outras, somos nós mesmos, com nossas elevadas expectativas não realizadas e a avidez do novo, que complicamos a nossa vida. O filósofo catalão Josep Maria Esquirol afirma que “a memória e a imaginação são as melhores armas do resistente”. Como animais dotados de criatividade, temos uma poderosa ferramenta na capacidade de conceber alternativas à realidade. Quando sopram ventos ruins, contudo, o que mais nos ajuda a resistir à investida? Segundo a escritora norte-americana Joan Didion, a resposta é o verdadeiro amor próprio. As pessoas com essa qualidade “são duras, têm uma espécie de valentia moral; exibem essa faceta que antes se chamava personalidade”. E alcançar uma vida plena também envolve a capacidade de se livrar das expectativas alheias e deixar para trás a compulsão de agradar.

Não há recomposição nem ressurgimento sem paciência. No kintsugi, o processo de secagem é um fator determinante. A resina demora semanas, ou até meses, para endurecer. É o que garante a coesão e a durabilidade. Entre os cultivadores da paciência, Kafka ocupa um lugar de destaque. Para ele, a capacidade de saber sofrer e tolerar infortúnios era a chave para enfrentar qualquer situação. Um dia, enquanto passeava com um amigo, Kafka lhe deu um conselho: “É preciso deixar-se levar por tudo, entregar-se a tudo, mas conservando a calma e tendo paciência. Só há uma forma de superação, que começa superando-se a si mesmo”. A receita para viver do autor de O Processo é simples, mas nem por isso menos difícil: “Temos que absorver tudo pacientemente em nosso interior, e crescer.”

Saber valorizar o que se rompe em nós traz uma serenidade objetiva. Gostemos de nós como somos: quebrados e novos, únicos, insubstituíveis, em permanente mudança.


Por MARTA REBÓN/El País

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

“Encerrando Ciclos”

   
Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos - não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram...

Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu. Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó. Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, sua irmã, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.

As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora. Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem. Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração - e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar... Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. 
Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.

Sonia Hurtado - jornalista 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Por que deveríamos ler “Minha Luta” de Hitler

As fotos em preto e branco e os vídeos borrados dão impressão de que a Segunda Guerra Mundial aconteceu há muito tempo e já está devidamente enterrada no jardim da História. Mas década de 1940 não está tão longe assim de nós: é muito provável que familiares e conhecidos de você, caro leitor, já eram nascidos enquanto o conflito global acontecia. Em termos históricos, somos praticamente contemporâneos das milhões de mortes de soldados e civis, da bomba atômica e do genocídio sistemático de judeus, homossexuais, eslavos, ciganos e outras minorias. O fantasma do nazismo e o horror liderado pelo ditador austríaco Adolf Hitler, infelizmente, ainda nos assombram.

Parece difícil entender como a nação que foi o berço de Johan Bach, Ludwig van Beethoven, Immanuel Kant, Friedrich Hegel e Albert Einstein também tenha abrigado uma ideologia sustentada a partir do ultranacionalismo e de pseudoteorias raciais para empreender perseguições e assassinatos em massa.
Mais espantoso ainda é saber que Hitler não chegou ao poder por conta de um golpe de Estado ou de uma conspiração militar: em 1932, ele recebeu mais de 13 milhões de votos durante as eleições presidenciais da Alemanha, ficando na segunda colocação da disputa, e deputados do Partido Nazista conseguiram dezenas de cadeiras no Parlamento – em 1933, com grande respaldo popular, Hitler seria nomeado chanceler alemão até tomar definitivamente o poder no ano seguinte e iniciar a perseguição a opositores políticos.

É verdade que o carisma e o poder da oratória de Hitler contribuíram para esse momento de “transe coletivo” da população alemã, mas a ascensão do Partido Nazista e os fatos que culminaram com a Segunda Guerra Mundial não devem ser entendidos como uma obra exclusiva do ditador. Afinal, quando Hitler chegou ao poder, a Alemanha passava por um momento de profunda crise política e econômica: as lembranças da derrota na Primeira Guerra Mundial ainda eram muito recentes e as pesadas sanções impostas por França e Inglaterra se refletiam nos altos índices de desemprego e na inflação incontrolável... Para piorar, o sistema político estava fragilizado e a população não confiava em seus representantes: o Partido Social-Democrata, ligado aos trabalhadores, estava no poder na década de 1920, mas não foi capaz de lidar com os anseios das classes populares.

Como momentos difíceis tendem a aprofundar radicalismos, a conjuntura alemã se tornou um terreno fértil para os discursos de um homem que tinha nascido na Áustria, mas lutado pela Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Aos 36 anos, em 18 de julho de 1925, Adolf Hitler publicava Minha Luta, escrito durante o período de sua prisão após uma tentativa de rebelião na cidade de Munique, em 1923.
O livro se tornou o guia ideológico utilizado posteriormente pelo Partido Nazista e reunia a exaltalção do sentimento nacionalista baseado a partir de conceitos raciais, o revanchismo contra os países vitoriosos na Primeira Guerra e o funcionamento de um Estado totalitário que não permitia a diversidade política ou partidária.

Após a chegada de Hitler ao poder, os direitos autorais de Minha Luta foram transferidos para o estado da Baviera, que abriga a cidade de Munique. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha iniciou uma campanha para destruir a herança nazista e impedir que iniciativas desse tipo voltassem a acontecer – até hoje, o Estado alemão se mantém distante de qualquer tipo de evocação política aos sentimentos nacionalistas. Durante 70 anos, o estado da Baviera proibiu que Minha Luta fosse reeditado e vendido, mas ao final de 2015 a obra caiu em domínio público e foi impressa por editoras de todo o mundo.

É compreensível e justa a preocupação alemã em não permitir que os ideais de Adolf Hitler e do Partido Nazista entrassem em contato com as novas gerações. Mas a leitura de Minha Luta pode, justamente, ser uma importante ferramenta para que os horrores passados não voltem a se repetir: em um momento global de crise econômica e desencanto com a política, não faltam discursos inflamados de pessoas que prometem respostas fáceis para questões complexas, estimulando o nacionalismo e o discurso de ódio contra aqueles que têm um pensamento diferente.

O conhecimento, então, se torna a arma fundamental para que a humanidade não enfrente outros pesadelos como aqueles vividos no século 20. Nesse caso, a História é ferramenta essencial para analisar o passado, entender o presente e transformar o futuro para melhor – Confere lá

sábado, 22 de julho de 2017

Sou efeito colateral de tudo o que eu não soube fazer

É uma qualidade não se limitar, querer sempre enxergar além.
Porém, são muitas as chances de cometer erros dentro dessa vontade de ter braços do tamanho do mundo e querer abraçá-lo.
O que não nos torna errados, apenas errantes.
Mas tudo bem, eu nunca quis mesmo me fechar dentre paredes que eu já conheço, sempre quis conhecer o universo como a palma da mão, mesmo que para isso eu tenha que fracassar diversas vezes.

É bom quando somos forçados a nos olhar de frente. Quando a vida coloca um espelho enorme na nossa direção e não temos outra opção se não nos encarar. É o momento de pensar se somos alguém que gostaríamos de conhecer ou se já não nos reconhecemos mais.

Nós somos feito de tudo o que não soubemos fazer. Pois, quando não sabíamos como prosseguir, moldamos nossa personalidade decidindo para onde ir: voltar e seguir para um lugar menos lamacento ou sacudir a poeira, repor as galochas e continuar seguindo rumo ao que antes sonhamos.

A gente nunca sabe quando vamos finalmente ser recompensados pelas nossas lutas, até que somos. Você saberia reconhecer a sua recompensa? Ou estaria tão ocupado reclamando do seu cansaço que passaria despercebido?

O entrelaço de tudo é que devemos nos orgulhar das nossas batalhas, ainda que sejam todas derrotas. Somos o que somos porque perdemos e agradeço por isso.
Cada gota escorrendo no meu rosto te conta quem eu sou. Seja de suor por tanto tentar ou lágrima por não conseguir.
Sou efeito colateral de tudo que não soube fazer, mas continuei tentando.
Por Najara Gomes postado no site CONTIoutra

sábado, 3 de junho de 2017

“Cada um enxerga a realidade como quer, não como ela é”

“Cria-se um significado quando muitas pessoas tecem juntas uma rede comum de histórias. Por que determinada ação -como casar-se, jejuar no Ramadã ou votar em um dia de eleições - parece significativa para mim? Porque meus pais também a consideram significativa, assim como meus irmãos, meus vizinhos, pessoas em cidades próximas e mesmo habitantes em países distantes. Por que todas essas pessoas pensam que isso é' tão significativo?

Porque seus amigos e vizinhos compartilham a mesma opinião. As pessoas reforçam constante e reciprocamente suas crenças, num ciclo que se autoperpetua. Cada rodada de cofirmação mútua estreita ainda mais a teia de significados, até não se ter muita opção a não ser acreditar naquilo em que todos acreditam.” – Trechos do Livro Homo Deus de Yuval Harari

Em assuntos que mexem com a emoção do sujeito – como futebol, religião ou política, por exemplo – o cérebro humano não assimila nem aceita informações e evidências que vão contra suas convicções, comentou a jornalista Malu Gaspar, sobre um estudo de neurociência que havia lido recentemente.

Ela deu como exemplo o racha que pudemos observar no dia do interrogatório de Lula ao juiz Sergio Moro. "Todo mundo assistiu ao mesmo depoimento, viu as mesmas imagens sobre manifestações a favor e contra Lula. Mas quem era pró-Lula acha que o depoimento foi um sucesso e o ex-presidente desnudou as verdadeiras intenções de Moro. Quem já era contra Lula celebrou o fracasso. E assim vamos confirmando a ciência."

A pesquisa foi conduzida pelo psicólogo Drew Western e um time de pesquisadores da Emory University, sediada em Atlanta (EUA), e o resultado apresentado na conferência anual da Sociedade de Psicologia Social e Personalidade.

Basicamente, os pesquisadores chegaram à seguinte conclusão: nós apenas procuramos evidências para confirmar e apoiar nossas crenças e ignoramos ou simplesmente reinterpretamos da forma que melhor nos convêm as provas que refutam nossas convicções.

Outros estudos conduzidos há pelo menos seis décadas que já mostravam o que os pesquisadores chamam de "viés da confirmação", o nosso cérebro descarta o que não combina com nossas opiniões e liga o radar apenas para aquilo que atesta nossas teses. Um deles, feito pela Universidade de Ohio, mostrou que passamos 36% mais tempo lendo algo que esteja alinhado com nossas ideias do que qualquer coisa que seja contrária a elas.

Ou seja, ninguém lê para se informar, apenas para ter razão. Nada do que os jornais digam, do que o noticiário mostre, nenhum tipo de comentário ou debate, por mais civilizado que seja, se revela minimamente eficaz porque o cidadão simplesmente não está interessado.

Vemos todos os dias isso pelo noticiário. Veículos de comunicação são atacados ora por coxinhas, ora por petralhas, sem falar dos bolsominions, dependendo da notícia que trazem em suas manchetes. Se ela agrada será compartilhada imediatamente. Do contrário, apenas serve para que a fonte seja desacreditada. Não serve. [...].

Passamos a ver interesses escusos e conspiração quando o "lado de lá" nos surpreende com posicionamentos com os quais concordamos. Abandonamos a busca da verdade porque é difícil assumir um erro ou mesmo encarar que se vive uma mentira, principalmente quando há tantas outras pessoas mergulhadas na mesma irracionalidade e o compromisso ideológico de se manter fiel a ideais.

Mais fácil manter a soberba, mesmo que descubra que tem sido manipulado por suas próprias emoções, mesmo que se dê conta que tem sido apenas um idiota vivendo de mentiras. Leia na íntegra 

terça-feira, 11 de abril de 2017

“Um dia eu e você fomos nós”, por Martha Medeiros

Nós viajávamos juntos em busca de trilhas distantes, nós descobríamos os detalhes de uma nova cidade percorrendo-a de bicicleta, nós tomávamos litros de vinho tinto durante o inverno gélido e também quando não fazia tanto frio assim, nós éramos os anfitriões dos amigos que vinham nos visitar e éramos, depois, a visita aguardada na casa deles, em retribuição.

Nós éramos torcedores do mesmo clube de futebol e, em alguns casos, não torcíamos para ninguém, apenas para nós mesmos. Nós – o nome do nosso time. Nós – uma espécie de identidade secreta. Nós – o elenco da peça em que atuávamos: uma história de amor para dois personagens principais.

Como quase sempre acontece, às vezes cedo demais, às vezes com atraso, o “nós” se desmembra e volta a ser apenas eu e apenas você, dois times distintos, duas identidades avulsas, dois personagens que já não contracenam. Um final triste, mas digerível – a vida é assim, fazer o quê.

E então um dia você telefona para seu antigo amor e escuta do outro lado da linha algo inacreditável como “Nós estamos de saída, poderia telefonar amanhã?”.

Você está falando com seu ex. Uma unidade. Que “nós” é esse que não se refere mais a você e ele juntos?
Seu antigo par formou um novo plural. Ele voltou a ser nós. Você ainda é só você, um singular.

Onde foi parar a misericórdia? A sensibilidade recomenda não anunciar a nova condição conjugal antes de todos os corações estarem cicatrizados. O uso do pronome pessoal pode ser uma forma sutil de dizer que a fila andou, mas não ameniza o golpe. 

Um amigo me contou esse baque pelo qual passou e estou tentando fazer uma narrativa refinada do seu desalento, transformá-lo em poesia, literatura, canção, sei lá, encontrar alguma análise confortante para esse “nós” que ele pescou no ar, durante uma conversa trivial, um “nós” que já havia sido dele e que agora não lhe pertencia mais.


Só que não há como confortar. É natural que sejamos exclusivistas e nostálgicos em relação ao “nós” que era nosso, aquele “nós” que depois entrou num vácuo, se desfez, silenciou. O fim simultâneo do que era seu e de outra pessoa foi o último ato de intimidade entre vocês. Até o surgimento deste outro “nós” que agora pertence só a eles dois – e que te dói – Revista O Globo domingo (9) – Enviado por Cacau Quil

domingo, 9 de abril de 2017

“A vida, o que é?” por Miriam Leitão

"A vida é boa, dura e curta". O homem que falou isso cercado de filhos tinha 98 anos. Aquele foi um dos últimos encontros de Florival com os sete filhos, entre eles, Carmen, que é conhecida no Brasil inteiro e presidente do Supremo. Definição sábia.

A vida é tão breve que parece rascunho, ensaio, tentativa. É como se o real da vida viesse após essa prévia preparação. Sabe-se  mais sobre ela depois que ela passa, quando, só então, entendemos o fundamental.

Se é ensaio, gostaríamos de corrigir alguns momentos, aqueles em que erramos feio, ou desafinamos. Faríamos melhor se ela voltasse um pouco, se houvesse uma tecla de retorno. Mas cada momento tem apenas a sua chance. É um texto sem correção, em que não podemos voltar nem para rever o ponto de uma vírgula. Na era pre-computador, as mudanças nos textos ficavam marcadas como cicatrizes, rabiscos enfeiando o papel. Na vida, nem essa correção com marcas podemos fazer.

Nos momentos em que ela é dura, duvidamos de tudo. Os dias difíceis e tristes são longos demais e nós, os seus prisioneiros. Na verdade pode ser uma nova chance. Uma amiga passou por uma doença que parecia fatal e ela lutou até vencer. Postou no Face a foto no hospital em momento de fraqueza, seu irmão ao lado, solidário, e escreveu que era ali o renascimento. Lembro de uma noite em que chorei pelas horas todas, até o fim da madrugada. No escuro, lamentei minha sorte. Uma demissão injusta e humilhante que me pareceu o fim da carreira. O resultado avesso dos esforços que fizera, o pagamento injusto do trabalho insano. Reneguei o passado, duvidei do futuro. E era véspera do começo do melhor tempo. Insone e triste, desperdicei o choro e lamentei em vão, porque aquela queda foi o impulso que me fez ficar de novo em pé e ir além do que sonhara. Há dores que são dores e só. Ficam como uma sombra.

Em tempo de alegria às vezes ficamos desatentos à abundância. Revejo o vídeo de um momento em que dançava feliz, comemorando um aniversário, anos atrás. Ao meu lado, na pista de dança, está um irmão que já não tenho. Voltasse eu àquele momento e o abraçaria mais uma vez e falaria do meu amor e ventura por tê-lo. Mas estou ali dançando, ao lado dele, distraída.

Às vezes a gente opõe partes da vida, como se uma roubasse tempo à outra, quando na verdade são fragmentos da mesma realidade. Ela é assim mesmo com suas muitas faces, suas alegrias diferentes, suas divisões. Ficamos divididos entre amores e entre deveres. E na divisão perdemos um pouco de cada prazer.

Há travos que ainda amargam, marcas que carregamos, alegrias que vão além do momento e a elas recorremos saudosos e gratos, há dificuldades que superamos, há inquietações que nos assombram em horas de fraqueza. Há tanto na vida que não se pode resumir numa manhã de sábado, principalmente quase se está como estou: assim repleta de gratidão pela vida que me é dada a cada dia. Por mais que eu tente hoje encontrar palavras de definição, me perco na complexidade e vastidão não dita. Ela é apenas o que é, e que o mineiro Florival definiu com exatidão nos seus pensamentos finais. Boa, dura e curta – Enviado por Cacau QuilCONFERE LA

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Entrevista com Mario Vargas Llosa

O romancista Mario Vargas Llosa, criador de obras-primas como Conversa na Catedral, A guerra do fim do mundo e Tia Júlia e o escrevinhador, é um dos maiores escritores da atualidade. Pela excelência de sua literatura, ganhou o Prêmio Nobel. Em suas palestras... Llosa se tornou um intelectual engajado. Suas causas são a liberdade e a democracia. O bom combate leva o autor peruano, que mora em Londres, a viajar pelo mundo. No giro mais recente, antes de vir ao Brasil, Llosa esteve na Argentina e no Chile. Ele está otimista com a América Latina, incluindo o Brasil. Llosa acha que nossa democracia sairá fortalecida, e não enfraquecida, do segundo processo de impeachment em menos de 30 anos. Abaixo trecho da entrevista concedida a revista Época na sexta (13):
O impeachment da presidente Dilma Rousseff representa uma ameaça à democracia, como diz o governo brasileiro?
–Não creio que a democracia brasileira esteja ameaçada. Ao contrário. O que está ocorrendo pode representar um fortalecimento da democracia no Brasil.
Por quê?
–O movimento popular que surgiu no Brasil é um movimento anticorrupção, de purificação da democracia, de melhoramento das instituições. E, sobretudo, de repúdio à ideia de que chegar ao poder seja um pretexto para enriquecer usando meios ilegais. Esse movimento mostra que havia mais corrupção do que parecia no Brasil, e rechaça a prática. A corrupção, em toda a América Latina, é uma gangrena contra as instituições democráticas.
O senhor vive em Londres. Como os europeus veem a situação atual do Brasil?
–A ideia de que há um golpe em curso no Brasil é o argumento principal da presidente Dilma Rousseff. Mas não acho que seja possível levar essa ideia a sério. Minha impressão é que estão sendo cumpridos todos os passos estabelecidos pela legalidade brasileira. Se houver impeachment, como parece que haverá, ele se dará estritamente dentro da moldura legal, que assim sai fortalecida. Creio que, se há uma ameaça à legalidade brasileira, essa ameaça está na corrupção, que cria um desencanto muito grande com as instituições democráticas.
Outro assunto muito discutido no país, além da corrupção, é a derrocada econômica, que está na raiz do processo de impeachment.
–Espero que o impeachment, se ocorrer, sirva como um aviso para evitar a desonestidade nos cargos públicos, mas não apenas isso. É preciso evitar também as políticas fiscalmente irresponsáveis. Creio que a irresponsabilidade, que é o populismo, está muito ligada à corrupção.
Qual a relação entre corrupção e irresponsabilidade fiscal?
–O populismo serve para ocultar, para disfarçar as transgressões da lei. Eu acredito que as duas coisas, populismo e corrupção, andam sempre juntas. [...].
Há dois tipos de governos de esquerda na América Latina. No Peru e no Chile, há responsabilidade fiscal e respeito às regras democráticas. Já no Equador, na Venezuela e na Bolívia – e na Argentina até recentemente –, o modelo é diferente. Por que isso acontece?
–Isso ocorre porque países como Equador, Venezuela e Bolívia são governados por mandatários que têm uma inclinação muito forte ao populismo. Mas minha impressão é que há uma reação na América Latina contra o populismo. Formou-se uma consciência de que o populismo significa sacrificar o futuro em troca de um presente que é muito efêmero. E o custo é sempre muito alto, principalmente para os mais pobres, que não têm como se defender de uma inflação alta, por exemplo. Minha visão da América Latina não é 100% otimista, porque na América Latina sempre podem ocorrer catástrofes. Mas tenho a impressão de que se compararmos a América Latina atual com a de 30 anos atrás há um progresso considerável. No passado tínhamos ditaduras militares e revoluções armadas. Agora temos democracias imperfeitas, mas que podem ser corrigidas.
O senhor é peruano. Como vê o caso específico do Peru, governado pela esquerda e considerado um exemplo de boa gestão econômica por organismos internacionais?
–É muito interessante o que se passa no Peru. Desde que caiu a ditadura, no final do século passado, houve três, quase quatro governos distintos que mantiveram o respeito à democracia política e – algo que é muito raro na América Latina – uma continuidade da política econômica. Uma política com abertura dos mercados, integração aos mercados do mundo, e incentivos aos investimentos. Com isso, reduziu-se bastante a pobreza extrema e houve um crescimento significativo das classes médias. Oxalá essa continuidade, que é rara também na história do Peru, se mantenha.
O senhor já foi fascinado pelo socialismo cubano. Pode falar sobre isso?
Minha geração queria ver no socialismo cubano um socialismo diferente, que não havia passado por um partido comunista, que parecia aberto à coexistência de ideias e valores diferentes. Parecia que finalmente teríamos uma revolução com liberdade e justiça. Hoje creio que tudo isso era um mito. Desde o princípio Fidel Castro optou por uma linha de socialismo soviético, que lhe dava um poder absoluto. Mas o desencanto demorou a chegar, como acontece sempre com os mitos que demoram em se desfazer. [...].
O senhor escreveu um livro sobre a civilização do espetáculo. Ela é uma ameaça à democracia?

–Esse é outro problema do nosso tempo. A alta cultura sempre proporcionou diversão e entretenimento. Mas a diversão não é a função principal da cultura, como se pensa hoje. A cultura tem como missão fundamental manter vivo o espírito crítico. A cultura nos coloca em contato com mundos criados, artísticos, que são confrontados com o mundo real. Ela nos faz ver o mundo real desde a perspectiva de mundos imaginados, geralmente mais ricos, mais intensos, mais perfeitos. Isso cria em nós um desassossego, uma inconformidade em relação ao mundo real, e é daí que nasce o espírito crítico – que é o elemento transformador das sociedades. Uma sociedade culta no sentido tradicional da palavra é mais difícil de enganar por governos mafiosos e autoritários. Se tudo se torna frívolo, puro entretenimento, perde-se esse efeito crítico e transformador da cultura. Leia na íntegra

terça-feira, 17 de maio de 2016

“Hipocrisia” por Luiz Fernando Verissimo

Durante muito tempo cultivou-se o mito do Brasil como uma espécie de jardim de inocentes num mundo conspurcado. Até no nosso autodesprezo havia um certo tom triunfal de uma raça diferente esperando sua vez de entrar na História. Éramos ineficientes mas simpáticos, atrasados mas cordatos, pobres mas engenhosos. Assim como a Amazônia era a reserva de oxigênio do planeta, o brasileiro era a sua reserva de candura. Conseguiríamos o milagre de nos transformarmos em potência sem cometer nenhum pecado antibrasileiro, como o da violência ou da insolência imperial. Nossos vilões nos roubaram este mito da amabilidade congênita. Certamente, nenhuma ilusão sobre a candura brasileira sobreviverá a estes últimos anos de ódio e intolerância. Temos uma história cheia de canalhices esquecidas ou camufladas, mas está sendo demais para a nossa hipocrisia este período concentrado de violência entre brasileiros. Os mesmos vilões nos arrancaram da confortável ficção de que poderíamos crescer sem deixar de ser inocentes, apenas como prêmio ao nosso tamanho e aos nossos bons sentimentos. Mas não parece haver dúvida de que será preciso pelo menos uma geração para deixarmos de nos enganar. E para voltar à hipocrisia. Publicado no Globo, domingo (8)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Entrevista com Umberto Eco

O escritor Umberto Eco vive com a mulher num apartamento duplo nos 2° e 3°andares de um prédio antigo, de frente para o Palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Haruki Murakami instalasse sua casa no sopé do Monte Fuji ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. Um dos andares da casa de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha é pequena. Abriga aquilo que ele chama de “ala das ciências banidas”, como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo e bruxaria. Ali estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa(1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Abaixo postamos trechos desta entrevista para a revista ÉPOCA – realizada em 04/07/2013 e 19/02/2016:
Como o senhor se sentiu após completar 80 anos?
-Bem mais velho! (risos. Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora.
O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é que o livro não acabará. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
-Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume. “Não contem com o fim do livro”. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.
Apesar da evolução, o senhor vê a internet como um perigo para o saber?
-A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar...
Mas o conhecimento está se tornando mais acessível com a internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de instituições confiáveis altera nossa noção de cultura?
-Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.
Há uma solução para o excesso de informação?
-Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.
Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual é sua opinião?
-Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não morrerá tão cedo. Publica um bom romance por ano. Não me parece que nem o romance nem ele pretendam interromper a carreira. (risos) - Confira na íntegra


Nota de rodapé: Philip Milton Roth é um romancista norte-americano de origem judaica, considerado um dos maiores escritores norte-americanos da segunda metade do século XX. É conhecido sobretudo pelos romances, embora também tenha escrito contos e ensaios.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Às vezes é preciso ir para poder ficar

Escrevi um adeus em um papel e o assinei. Não me alonguei como geralmente costumo fazer em sua presença. Preferi ser breve. Finquei o escrito no portão da sua vida. Eu sei, não avisei quando cheguei, mas senti uma vontade incontrolável de anunciar que agora me vou.

Vou porque é tempo de ir. É tempo de seguir a minha natureza de partir. De guardar bonito o que vivemos. De guardar as memórias partilhadas, as histórias dedilhadas, os dias que nos acolheram em horas de longas conversas e admiração. Preciso dizer que finquei o papel de forma displicente, e o fiz para que, com sorte, o vento o leve e o meu adeus fique no silêncio, se valendo apenas da tua percepção em sentir que já não estou mais.

O mundo anda rápido hoje. Pessoas muitas vezes são substituídas como a última coleção outono/inverno abrindo espaço para novos modelos primavera/verão. Pessoas são, comumente, liquidadas, bem baratinho, em algum saldão da vida.

Esse tipo de coisa entristece, esse tipo de comportamento desalinha o ânimo mais exultante. Espero que eu valha pra ti mais que o teu all star velho (e eu sei que você tem um certo apreço por ele).  Espero, lá no fundo, que você reserve um lugar especial para mim em seu coração...

Eu sei, é estranho, contudo às vezes é preciso ir para poder ficar. É preciso ir para, depois de tudo, regressar e quem sabe dividir um maço de cigarro barato, como se o tempo não tivesse passado. É preciso ir para saber aqueles que são de verdade.


Então se nada mudar, depois de um longo tempo de distância, se nada mudar depois que novamente nos tocarmos, eu saberei que sempre morei em você, que teu coração me abrigou carinhoso no tempo em que fiquei fora. Saberei que a gente vai ser pra sempre, mesmo que de vez em quando um dos dois resolva simplesmente ir. Por Vanelli Doratioto/contioutra.com - enviado por Cacau Quil

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Indigne-se

O motivo de base da Resistência era a indignação. Nós, veteranos dos movimentos de resistência e das forças combatentes da França livre, apelamos às jovens gerações de dar vida, transmitir a herança da Resistência e seus ideais. Dizemo-lhes: Peguem o bastão, indignem-se! Os responsáveis políticos, econômicos, intelectuais e o conjunto da sociedade não devem desistir, nem se deixar impressionar pela atual ditadura internacional dos mercados financeiros que ameaça a paz e a democracia.

Espero que cada um de vocês encontre seu motivo de indignação. É precioso. Quando algo nos indigna, como nos indignamos com o nazismo, então, tornamo-nos militantes, fortes e engajados. Retomamos essa corrente da história e a grande corrente da história deve prosseguir graças a cada um. Essa corrente vai em direção à mais Justiça, mais liberdade, não essa liberdade incontrolável da raposa no galinheiro. Esses direitos que a Declaração Universal redigiu o programa, em 1948, são universais. Se encontrar alguém que não os tenha, ajude-o a conquistá-los [...].

É verdade, as razões para se indignar podem parecer, hoje, menos claras ou o mundo é mais complexo. Quem comanda, quem decide? Não é fácil distinguir entre todas as correntes que nos governam. Não nos confrontamos mais com uma pequena elite da qual compreendemos claramente as ações. É um vasto mundo, que podemos bem sentir como é interdependente. Vivemos numa interconectividade como jamais existiu. Mas nesse mundo, há coisas insuportáveis. Para ver é preciso olhar, procurar. Digo aos jovens: Procurem um pouco, irão encontrar. A pior das atitudes é a indiferença, dizer, “não posso fazer nada, vou me virando”. Comportando-se assim, perdem um componente essencial que faz o humano. [...]. Trechos do livro-manisfesto “Indigne-se!” De Stéphane Hessel


Nota1:O livro, Indignez-vous (Fique indignado), quase um panfleto, de 30 páginas, tornou-se a sensação literária na França no Natal de 2012... Por incitar os jovens ao não conformismo pacífico, Hessel virou uma celebridade pop.
Nota2: O livro-manifesto aos Indignados é uma compilação de recortes de entrevistas e memórias do resistente Stéphane Hessel, que aos 93 anos, felizmente, ainda pode nos contar sua história no Conselho Nacional de Resistência (o CNR) e na redação do programa elaborado, a pedido do General de Gaulle, para a França Livre, que foi adotado em 1948 pela ONU, e ficou conhecido como Declaração dos Direitos do Homem, ao fim da Segunda Guerra Mundial, após o holocausto de milhares de vítimas do satanismo alemão e mundial.

Nota3: Hessel foi deportado para vários campos e torturado, mas conseguiu escapar e por isto está aqui para nos contar a história e contar conosco para pegar o bastão da Resistência e da luta permanente pela proteção dos Direitos Humanos no mundo e pela garantia da participação popular na Democracia

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O "Banco de Tempo"

Em Portugal, existe um banco onde a moeda não é o dinheiro e sim o tempo. O Banco do Tempo funciona como um sistema de troca de ações solidárias. A instituição troca o dinheiro pelo tempo para que as pessoas possam fazer serviços umas para as outras. Cada membro oferece e recebe um serviço. Por exemplo, tratando-se de um médico, ele pode oferecer uma consulta a quem não tem condições de pagar pelo serviço e, depois, receber um serviço em troca de outro membro.

Através das trocas e dos encontros, o Banco de Tempo enriquece o mundo relacional das pessoas que nele participam, joga um papel importante na recuperação, em novos moldes, da solidariedade entre vizinhos e no combate à solidão; favorece a colaboração entre pessoas de diferentes gerações, proveniências e condições sociais. Contribui também para o desenvolvimento e partilha de talentos e facilita o acesso a serviços que dificilmente poderiam ser obtidos, dado o seu valor de mercado. O Banco de Tempo suscita questionamentos e incentiva mudanças no modo como vivemos em sociedade”, diz o site do banco.


O serviço é pago com um “cheque do tempo”. Quem prestou o serviço deposita o cheque, que é creditado em sua conta, e pode a partir daí obter serviços oferecidos pelos outros membros do banco. Cada hora de trabalho prestada por um membro equivale a uma hora de serviço qualquer que ele precise no futuro. O bacana é que todas as horas têm o mesmo valor, independente do serviço oferecido. Uma economia solidária e justa. Atualmente, o Banco do Tempo possui 28 agências espalhadas por várias cidades portuguesas. Entenda mais, clicando aqui, e assistindo ao vídeo “Um banco onde o tempo é a moeda de troca” – Fonte: http://www.contioutra.com/